CARTA ABERTA A AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA: REFLEXÕES ACERCA DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2002
Prezado Affonso,
 Inicialmente, gostaria de me apresentar, já que não nos conhecemos pessoalmente. Meu nome é Eduardo Argüelles, sou médico-cardiologista e professor universitário, titular de cardiologia da UFRJ. Desenhista amador desde jovem, passei a pintar, como autodidata, em 1986, tornando-me profissional da pintura em 1988, quando da exibição de meus trabalhos da época em galerias comerciais do Rio de Janeiro.
 Este texto, você já pode depreender, deve-se à sua louvável atitude de trazer à discussão o rumo tomado pelas artes plásticas, com a atual “supremacia” da chamada arte contemporânea, em termos de divulgação, valorização e mídia.
 Apesar de ter sido tentado a me comunicar com você desde os seus artigos iniciais, apenas após a matéria publicada em 21/08 p.p. no Segundo Caderno de O Globo me decidi a tecer as considerações aqui contidas. Desde logo, gostaria de me deter na própria matéria, ambígüa e reticente, na qual, desde os títulos, se percebe sutil condenação às suas críticas, em tentativas ora de ironizar, ora de ofender, sugerindo oportunismo ou afirmando ignorância e retrocesso. De há muito, os representantes da auto-denominada contemporaneidade usam deste tipo de argumento para atemorizar seus eventuais críticos. Na realidade, não me parece necessário ter curso teórico avançado de qualquer das formas de expressão artística para poder apreciá-las. Eu, por exemplo, não reconheço uma única nota musical, mas nem por isso deixo de me emocionar, eventualmente às lágrimas, com música de Bach, Vivaldi, Mozart ou Beethoven.
 Não é preciso diploma da Escola Nacional de Música ou ser poeta atuante para reconhecer a qualidade do trabalho de pessoas como Tom Jobim, Chico, Vinícius e tantos outros e saber que supera largamente o que se faz nos dias atuais. Certamente, não é também necessário ser expert ou versado em mistificação para reconhecê-las. Utilizar biombos e perguntas amedrontadoras tais como “afinal o que é arte?”, “qual a forma natural ou correta de fazê-la?”, etc..., apenas busca obter do interlocutor a inibição, já que não há possibilidade de respondê-las. Definir coisas ou objetos materiais já é, em si, tarefa difícil, senão impossível, sendo as definições imprecisas ou realizadas apenas através das origens, utilidades ou funções de tais objetos. Que dizer de elementos subjetivos como os envolvidos com a emoção e a arte. Acredito que a apreciação positiva de uma obra de arte, para a maioria dos mortais, represente o reconhecimento de um tipo de emoção interna e pessoal que não pode, muitas vezes, ser traduzido em palavras. Acredito, também, que para estes mesmos mortais tal emoção contenha algum vínculo com o “belo”, mas sabemos que o belo é subjetivo e que não representa o mesmo para todos. Admito, sem restrições, que, para alguns, o “belo” possa ser o grotesco, o chocante, a auto-mutilação e, até mesmo, a preferência pelo excremento e o vulgar. Defendo a liberdade de gosto e de expressão artística, como forma de convivência democrática, mas defendo, também, a liberdade da crítica, a rejeição e até mesmo o repúdio como manifestações desta mesma convivência. Tais preceitos, porém, parecem fazer mal aos “contemporâneos”. A começar pela liberdade de expressão do outro, quando esta leva em conta fundamentos, hoje malditos, não atuais, como o desenho, a harmonia da composição das cores e das formas.
 O patrulhamento contemporâneo estigmatiza como “copista” qualquer um que se aventure a um trabalho figurativo, especialmente se não deformista e capaz de ser reconhecido, aí novamente, pelo comum dos mortais. O velho e falacioso argumento de que “a fotografia faz melhor”, apenas expressa uma estratégia para a valorização exclusiva do abstrato ou do “mal feito”, fruto, em não poucos casos, da incapacidade do fazer “bem feito”, e que não é em si nenhum pecado, mas apenas um tipo de incapacidade específica que credenciaria mais bem o seu portador a uma outra atividade na qual a natureza lhe fosse mais generosa.
 Ainda uma vez, nada contra o abstracionismo, utilizado, integral ou parcialmente, como forma de expressão pictórica ou escultural por talentosos artistas em nosso meio, mas curioso é que estes raramente freqüentam a mídia e são sequer reconhecidos ou admitidos como “contemporâneos”. A respeito, cito a abstração por ser ela – caótica ou geométrica – a opção maciça entre estes últimos, esquecendo-se eles, em sua obstinada modernidade, que o abstracionismo, como diz Carlos Cavalcanti, “é uma tendência bastante velha na história da pintura”, ocorrendo ainda na pré-história, passando pelo neolítico, período clássico, chineses antigos, árabes e outros, até chegar a Kandinsky, Duchamp e às múltiplas variações e, tendências que se seguiram, todas de essência abstrata e todas quase centenárias. Quanto ao termo pejorativo-copistas – utilizado na agressão aos artistas figurativos, vale lembrar que o “copismo” é também muito velho, sendo tendência natural observada já na pré- história, atingindo seu vértice em artistas como Van Eyk, Vermeer, Dürer, Rembrandt e, porque não dizer, todos os grandes mestres, felizmente ainda cultuados, que utilizaram o espelho, os modelos, e os instrumentos de ótica disponíveis ao seu tempo para “copiarem” com perfeição a natureza, a si mesmos e os objetos ( a respeito vale a pena ler o recém lançado O Conhecimento Secreto, de David Hockney, Ed. Cosac e Naify). Nos dias atuais, também os “contemporâneos” e os hiperrealistas se utilizam das facilidades tecnológicas, existentes, só que bem mais sofisticadas, como a computação gráfica e a retroprojeção. Curiosamente, a pintura hiperrealista, esta sim, passível de ser confundida com a fotografia, constitui a mais “jovem” ou “contemporânea” dentre todas as modernas formas de expressão pictórica, já que existente há apenas cerca de 20 anos.
 Quando você reclama da pouca participação dos artistas na reação à “doença terminal das artes plásticas”, digo que você tem razão, mas justifico o fato. Os artistas visuais privilegiam a imagem e poucos se atreveriam a debater com os “intelectuais” que formam a tropa de choque a serviço dos contemporâneos, especialmente porque os textos são propositalmente enigmáticos, empolados e confusos, causando nos leitores a impressão de que não estão à altura de compreendê-los. Em segundo lugar, porque mesmo que quisessem não teriam espaço para o debate e a exposição de suas idéias.
 Raramente, ocorre o que me sucedeu, ou seja, ter a oportunidade de discutir a decadência da arte com o pintor e ex-secretário de cultura do Estado Adriano Aquino, em programa televisivo e em debate público no Mercadinho São José.
 Finalmente, a reação é inibida pelo medo da retaliação, já que o poder dos contemporâneos pode ser facilmente medido pelo espaço e prestígio que desfrutam na mídia. O mesmo medo, aliás, deve permear a atitude do grande público, que se desculpa, entre dentes, por não gostar da pintura contemporânea, ressalvando, no entanto, que “não entende de arte”. É, talvez, o mesmo fenômeno que constitui a base da atual crise do mercado de arte, já que o possível comprador teme adquirir algo de que gosta, mas que não está na mídia ( e, portanto, na moda), mas reluta em comprar algo que não entende e de que não gosta, ainda que induzido por fortes condicionamentos culturais e psicossociais.
 Neste contexto, perduram apenas dois segmentos do mercado de arte: o dos leilões, essencialmente dedicado aos artistas mortos, famosos e de preço elevado, de cunho comercial e que penaliza duramente o artista em atividade, e o da venda manipulada dos contemporâneos, cujos compradores, movidos pelos condicionamentos há pouco citados, buscam, basicamente, pelo que julgam ser uma nova forma de inserção social.
 Discordo de você apenas em um ponto, quando você afirma não ser um crítico de arte. Felizmente, para logo corrigir, “porque não quero”.
 Pessoalmente, ao menos no Brasil, não tenho conhecimento da existência de faculdade, currículo ou diploma destinados a críticos de arte. Acredito que este título decorra mais de uma outorga espontânea, originada do reconhecimento coletivo, do que de uma auto-proclamação alicerçada em grande audácia e infinita pretensão.
 Propositalmente, não quis me deter em outras manifestações contemporâneas como a performance e as instalações, tão cultuadas em bienais, preferindo me ater às reflexões acumuladas em quatorze anos de vivência profissional com a pintura. Aos interessados, é importante a leitura de “Cultura ou lixo” (“Culture or trash”, em inglês), escrito pelo crítico da National Review, James Gardner. Ali se encontram inúmeros relatos da insólita preferência pela auto-flagelação e os excrementos, fonte de prestígio, fama e fortuna de “geniais” contemporâneos e sob o aplauso entusiástico de intelectuais da crítica especializada.
 Gostaria de encerrar esta carta ( ou catarse ?) esclarecendo que não me move sentimento de raiva ou frustração com o que ocorre nos dias atuais. Procurei compreender as cansativas repetições de “reciclagem”, “interatividade” e “popularização” da arte em suntuosos ambientes que exibem telas pintadas totalmente de cor única, em museus (museus?) de arrojada arquitetura, muito mais apreciados pela qualidade do invólucro do que pelo que abrigam, e em exemplos de arte interativa como mesa repleta de peças encontradas em qualquer oficina mecânica de bairro e que podem ser deslocadas livremente pelo público como prova de tal “interatividade”. Procurei, mesmo , em cursos e leituras dedicadas à arte, sua história e à estética buscar as origens e razões de tão profunda decadência e tentei entender os meandros históricos e sociológicos que impuseram a supremacia do caótico. Li com atenção as razões de se privilegiar trabalhos cujo fulcro seria desmitificar a arte, não entendendo porque destruir mitos e místicas acumuladas em séculos de esforço e talento, para colocar em seu lugar, não uma nova mística, mas a mistificação.
 Creia prezado Affonso que a sua corajosa luta nos dá novas esperanças. No mínimo, rompe com o silêncio cumplicioso e o medo para denunciar que novo não é necessariamente sinônimo de bom, que arte é dádiva atemporal e que, por isto mesmo, não deve abrigar qualquer tipo de pensamento estratificado, pétreo e único, sob pena de ruir sob o peso da própria decadência, da ironia, do repúdio e do descrédito.
 Atenciosamente,
EDUARDO ARGÜELLES
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